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MÚSICA NO CORPO DE FUGA

Música no corpo de Fuga é um livro de encontros, mas não são encontros quaisquer. São encontros com o perdido da gente, aquele pedaço que ruiu, fendeu e partiu literalmente em errático destino. A fuga não é escapatória somente, é também um outro encontro, no entanto, já tem algo de pacífico. Mas nem tudo neste livro do escritor e jornalista Fabrício Fernandez é dissonância. Há uma ligeira melancolia que nivela as almas das personagens que estão em busca de uma identidade com o lugar de acolhimento e pertencimento. Lucas é um migrante que sem motivos quer fugir de Vitória, abriga-se por algum tempo em Brasília e é atormentado pela arquitetura egoísta e isoladora. Juli é um nativo que, mesmo acomodado ao plano da cidade, não se encontra no espaço de seu corpo. Ambos estão claramente em fuga.

O livro é repleto de referências literárias e musicais como se a literatura e a música fossem compondo este ser cambiante e andarilho. Aliás, é forte a presença de uma temática Nolliana aqui em seu texto: todos são andarilhos de si e de seus próprios rumos. Mas é impossível viver sempre sobre rastros perdidos:

“Qualquer consistência de permanência física era necessária para estar ou pertencer”, diz o terapeuta de Lucas. E por algumas vezes, Lucas tentou enraizar, porém o concreto ou o barro vermelho de Brasília não promoveram o ideal espaço. Mas ficamos em dúvida se a culpa – estamos sempre procurando um motivo, culpa – era, de fato, da cidade atordoadora. Aliás, a cidade era nova  e novo pode ser desafiador. Então nos perdemos nestes vacilos da existência de Lucas e Juli. “Quem são Lucas e Juli?”, me perguntei algumas vezes durante a leitura. Por incrível que pareça eu me encontrei neles. Somos estrangeiros nesta terra procurando um pedaço perdido e isso angustia quando a busca se mostra mais forte do que este desejo do reencontro.

Música no corpo de Fuga me deixou uma tarde em plena discussão comigo mesmo, sobre estas questões de existência, pertencimento e busca – ou seria fuga? Por alguns momentos, somos levados a concluir que realmente a fuga é o lugar do perdido, é lá que se encontra nosso pedaço outro. Mas em algum momento Lucas afirma: “Quem potencializa o isolamento sou eu…” E não será? Estamos na busca do fendido que nada mais é do que uma espécie de busca pelo amor: o calor, a família, os amigos, um amor vivido no passado… ou pode ser também uma busca pelo o que não-deve-ser-amor.

“Será que na vastidão desconhecida do amor a gente se amplia ou se reduz um pouco?”

Sei que fui me perdendo ao longo da leitura e, ao mesmo tempo, me recompunha na trilha sonora embutida na leitura porque algo do passado refazia o todo. Não era um todo completo porque assim como Lucas, também me perdera na arquitetura dos prédios e das almas dos candangos zumbis.

No fundo Lucas e Juli são pedaços de si mesmos perdidos, e que por alguma falha numa lei física que explicasse o magnetismo dos corpos, eles se excetuaram. É isso, exceção. Ali o conjunto daquelas almas, não parecia ter alguma regra descrita ou que não pudesse ser romanticamente burlada.

Mas em que pese a fuga em Música no corpo de Fuga não me pareceu um ade

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As feridas de um crítico

Dia desses de compras, encontrei na FNAC um livro intitulado AS FERIDAS DE UM LEITOR de José Castello. Tava bem baratinho R$ 5,00. Logo veio a memória o embate que tivemos indiretamente por meio do setor de cartas da Revista. Contestei com todas as minhas forças a ideia de que existia uma estética homossexual, fato que ele “comprovou” por aspectos contextualizados numa falta de existência do homossexual e de uma herança de maldiçoes dos escritores gays mais renomados. Para ler meu comentário, veja o post no meu blogue (clique aqui) ou resgatem as revistas de números 145/146 de agosto e setembro de 2009.

Agora com este livro em minhas mãos devo reconhecer o trabalho de Jose Castello como limpo, lúcido ao interpretar autores, conjunturas e obras de uma forma clara, quase pedagógica.  O livro sem pretensão tenta resumir suas leituras e análises, às vezes mistura estilos quando conta histórias sobre as aventuras de V. Wolf e do irmão, alternando a loucura e o lúdico da escritora; ou quando ele tenta resumir uma obra tão pretensiosa como a de Harold Bloom, ONDE ESTÁ A SABEDORIA? Harold Bloom se diz o arauto do cânone masculino, enfim; Castello deixa claro o que pareceu tão hermético neste livro.

Vou folheando e achando coisas interessantes sobre alguns autores e obras, como o livro de Cristovam Tezza,  O FILHO ETERNO, no qual ele teoriza sobre a pessoa a ser utilizada na urdidura, 1ª ou 3ª pessoas?

Estes pequenos detalhes fazem com que o livro amorteça em mim aquelas ideias que ele tinha em relação à estética homossexual. No entanto, coloca o debate, depois de quatro anos, sobre a produção da literatura com temática e estética homossexual.

Ainda acredito nesta estética não apenas porque acredito, mas porque existe uma cadeia que envolve a produção casuística: leitores, consumidores, agenciadores, pontos de debate e vivência desta leitura, editoras especializadas e sobretudo escritores.

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Nossos Ossos

Nossos Ossos é o primeiro romance de Marcelino Freire. Mas se engana quem pensa que a narrativa de Heleno, o herói da história, é pura prosa. Marcelino empreende uma verdadeira tessitura de palavras que vão rimando. O ritmo da leitura vai ganhando pausas, virgulas vocativas, vírgulas explicativas como que criando um repente, uma epopeia.

Tanto que por várias vezes eu vi em Heleno como Ulisses de Homero; ou como um retirante nordestino que viveu e sucedeu na grande Selva de Pedras e que depois de sua missão cumprida, retorna para sua terra natal para requerer sua paz.

Como os personagens da epopeia, Heleno se taca para São Paulo não apenas pelas oportunidades, de vencer como grande dramaturgo, mas na esperança de encontrar Carlos, seu grande amor. Na cidade grande, Heleno não encontra Carlos, tendo que criar seus novos referenciais. Sozinho, redesenha sua trajetória através dos corpos dos michês. A solidão é aplaca pela companhia comprada, Cícero, também nordestino. E se aproximam pela memória afetiva do sotaque pernambucano. Mas Carlos não sai das visões em cartazes, espelhos dos arranha-céus, da multidão da grande São Paulo.

E como retirante o subemprego é a primeira entrada no mercado de trabalho. A força de vontade, as habilidades de Heleno como revisor e a dramaturgia começara a lhe dar frutos. Mas ainda, se perde nos michês, nos abraços comprados. A idade também é mais umas das tarefas hercúleas de Heleno para enfrentar.

Mas o boy, Cícero, é assassinado enquanto trabalhava nas ruas de São Paulo. Heleno tem um coração enternecido e assume o compromisso de dar um enterro digno ao conterrâneo amado. Obrigando-se a levar o corpo de volta a Pernambuco. E aqui a narrativa entra numa parte dolorosa para Heleno que começava a repassar o filme de sua vida em sua mente. A possibilidade de retorno a terra natal é mais do que uma missão altruísta, é uma rendição de seus pecados.

Há uma simbologia nos ossos que Heleno e o irmãos desenterravam no quintal da pequena Sertânia. Os pequenos fosseis, os ossos humanos eram desenterrados como uma forma de redescobrir o valor do mortos, de suas histórias. As partes que compõem o livro vão dissecando o corpo humano como se fossem desvendando a importância dos componentes do todo. Não é macabro, é um jogo de quebra-cabeças existencial; nos destrinchamos para depois no recompor. E é assim que a prosa-poesia de Marcelino vai nos surpreendendo como a intensidade do bate e rebate entre repentes.

Temos então, ao final da jornada de Heleno, a epifania a que todos os artistas são acometidos. O escape para o absurdo, segundo Camus, seria o suicídio. E ao grande dramaturgo antes das cortinas se fecharem a tragédia deve ser encenada. Heleno cumpre sua epopeia e entre os ossos que tanto lhe deram o lúdico, ganhando o significado etéreo de uma grande ovação. “Cai o pano.”

Surpreendente e fabuloso!

Roberto Muniz Dias é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Os textos desse escritor piauiense, de Teresina, são intensos, dramáticos e cheios de vaivens atemporais. De uma tal profundidade de sentimentos que arrebatam o leitor já nas primeiras linhas.

Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93ª Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe – O Mocinho ou o Herói podem ser Gays” e recentemente lançou seu livro de contos: Errorragia: contos, crônicas e inseguranças.

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Baiano de Todos os Santos

Livro lido e prefácio feito para o jovem, cosmopolita, belo e talentoso escritor Paulo Renan Daltro Barreto.

Divulgo aqui, ainda que o livro esteja no prelo, partes do prefácio, divulgado na página do facebook do autor:

Baiano de Todos os Santos

Confira em primeira mão o release do MEU LIVRO; um TRECHO extraído do PREFÁCIO, feito por Roberto MW D, mestre em Literatura. 

O primeiro livro de contos do baiano Paulo Daltro não poderia ser diferente; Baianos de todos os Santos é uma exortação ao povo baiano, uma homenagem, uma oferenda feita a Iemanjá. Mas não só a ela. O panteão de deuses também são vividamente caracterizado nos desígnios das almas e dos corpos deste povo cheio de ginga e criatividade especiais. O livro é um passeio pelas ladeiras, pelas ruas e casas históricas de uma Salvador que convive com o novo e a memória de seu passado histórico. Somos conduzidos com cuidado pelas mãos – ou seria pelas memórias afetivas e vividas do autor – que nos revelam a candura e a fortaleza deste povo. Daltro nos prepara em cada conto, como se fosse tecendo os fios de uma rede, por meio de sua memória e registro dos lugares – como se revivesse a sua infância – na qual somos ora pescados como tesouros do mar, ora somos convidados a balançar nessa rede para apreciar com vagar as belezas dessa terra. Às vezes é inarredável, se não concomitante, ser agraciados com essas duas possibilidades.

A lascívia, a ingenuidade, a descoberta do sexo e o gingado do povo baiano também são temas exaltados em sua prosa, como se Daltro retirasse um fino e translúcido véu de nossos olhos para enxergar uma outra realidade.

Por esta razão que o livro de Daltro vai descortinando, ao mesmo tempo, o passado e o presente; o trágico e o lírico; o lascivo e o mítico dentro de uma prosa linear, fluida, sem rompantes, mas repletos de peripécias como quem joga capoeira. Baianos de todos os Santos é um mergulho de mãos dadas com Iemanjá neste grande mar que é a Bahia – nossa grande mãe. 

Roberto Muiniz Diaz é autor do livro “Adeus a Aleto”, premiado no Concurso Novos Autores 2009 pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Ah, o escritor, também, faz parte do time de blogueros do Mix Brasil!

O que era meu, breve será também do mundo.#BaianosDeTodosSantos #EmBreve #MeuLivro#DuabainoMetido

A imagem é um piloto da CAPA – ainda em processo criativo.

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Vidas Provisórias, vidas possíveis

Vidas Provisórias

As vidas enredadas no novo livro de Edney Silvestre, Vidas Provisórias, encontram-se entrecortadas; no entre-lugar, no entre-tempo. Elas vão, em suas distâncias e proximidades, dialogando entre si. E nós, leitores modelos ou leitores empíricos, vamos cortando uma película de 8mm e com seus furinhos encaixamos as histórias, tentando recontar por meio do desespero alheio nossa linearidade dentro do passado de um Brasil não tão remoto; de um tempo não tão passado.

Há uma diáspora de esperanças, perdidas na reconstrução da vida por outros espaços, outras identidades. Aí, aquele filme que cortamos, vamos colando num anteparo chamado de memória – ou seria tempo? – os pedaços da vida.

Edney Silvestre vai, verdadeiramente, costurando as memórias e os medos; as vicissitudes e as peripécias de Paulo e Bárbara entrecortados pelos traumas e pelo futuro. Novas identidades inauguram a esperança, mas ainda o passado revisita-os contundentemente.

Temos então duas vidas, duas histórias, duas épocas da história do Brasil em que os anos de chumbo da ditadura militar são reconstruídos milimetricamente por ações, períodos curtos, e uma perfeita descrição dos ambientes, pessoas e lembranças. Ao expatriado só resta as memórias dos sabores, da família e da lembrança.

É possível viver uma nova identidade sem a memória afetiva e perturbadora do passado? Viver longe de nossos referenciais telúricos nos tornam mais preparados para o novo?

Minha recepção do texto de Edney Silvestre levou as minhas leituras internas; intertextualidade com outros livros que lera e que trabalham de forma estilística os mesmos temas em Vidas Provisórias. Foi inevitável não relembrar de Stella Manhathan de Silviano Santiago que relata essa e diáspora de si e da terra como refúgio para uma nova vida. Paulo depois de tortura pela ditadura é asilado em outro país para não ser morto; Bárbara quer encontrar em sua viagem para os EUA a experiência de viver um sonho:“the american way of life”; e os livros de Paulo e Bárbara, que Edney separa propositadamente em cores diferentes, recortados, vão revezando as histórias dos personagens. Tal estilo fez simbolicamente Assis Brasil em Como os que bebem como cães, no qual a experiência da prisão é também recortada entre o pátio e a cela; experiências que nos tornam alheios a nós mesmos e tudo o que resta são os poucos vestígios de uma vida anterior – igualmente torturante para quem dela já viveu. Tanto temas como o estilo de contar suas ficcionalidades são revisitados – pelo menos em minha memória de leitor – em Vidas Provisórias. Isto mostra que uma obra sempre nos conecta com nossas experiências como leitores.

E como se inaugura este novo ser, este devir fugindo do seu próprio passado?

Paulo foge, com ajuda do irmão coronel do Exército, para o Chile depois Estocolmo para que não perdesse sua própria vida, mas antes disto sofrera as torturas pelos aparelhos repressores da ditadura militar no Brasil. Já Bárbara foge de uma família sem carinho, de uma recessão econômica, desemprego historicamente avassaladores de um período de incerteza econômica, inflação no Brasil. Brasil é o ponto irradiador destes personagens que vivem entre a saudades e os monstros que o passado alimenta – e por que não um mistério da própria vida?

O livro de Paulo é mais robusto, mais consistente em histórias. Todo seu passado fora apagado, entre registros de nascimento, registros escolares, fichas de emprego, tudo havia sido apagado de sua vida. Assim, vivia a reconstruir sua vida em outra línguas, outro país, outras texturas femininas. Anna seria esta nova textura existencial, essa tessitura de uma nova roupagem a lhe dar um novo significado. Já o livro de Bárbara revela uma mulher saindo da adolescência – ainda a reconhecer o sentido da dor – e descobrindo a vida pelos braços dos outros; pelos olhos dos outros. A família de outrora deixada no Brasil é substituída pela histórias de seus clientes de faxina: putas; Silvio, um cadeirante velho e gay. Enfim, o novo se refazia nessas vidas por diversas formas, repletas de experiências desconhecidas, que na precariedade inventavam suas vidas novas.

Se eu fechar os olhos agora cai como uma luva, não apenas como um recurso do autor para resgatar o sucesso de seus personagens do seu livro anterior – recolhendo da memória de Paulo o amigo de infância Eduardo – mas, como se fosse um recurso fílmico esse abrir e fechar dos olhos, transportando-nos para a próxima cena. É assim que vamos adentrando a narrativa de Edney; levados por um viés específico no qual os fatos históricos vão compondo também as novas rotinas dos personagens Paulo, Anna, os filhos Edward e Joseph; e Bárbara que nada tem dela senão seu futuro. Paralelamente, o autor vai misturando acontecimentos entre os anos de 1970 até 2001 dentro da teia de seu próprio enredo. O pano de fundo fortalece o sentimento de pertença e de degredo; de lembrança e de recomeço. O término da USSR, as crises econômicas, a guerra do Golfo, o ataque do 11 de setembro, as instituições internacionais, enfim, estes acontecimentos vão se misturando à narrativa de forma inteligente como num thriller psicológico.

Os livros de Paulo e Bárbara vão se adensando, enquanto a história é reclamada nas incertezas da nova ordem mundial tal qual a vida dos próprios personagens, enredadas pela contínua força do passado e a urgência para com o novo. A língua, os espaços, a multidão de estranhos costumes vão fortalecendo a necessidade pela vida, apenas pela vida. Os vínculos são fortalecidos pela insistência do amor, da continuidade – e por que não na busca da felicidade roubada. Edney nos transporta por entre as dores de duas almas perdidas pela falta de terra nativa, dos cheiros e lugares de um Brasil deixado para trás. Cada um de nós tem a vida provisória que precisa ter, enquanto tal, podemos dela nos aproveitar para rearranjar nossas histórias. O passado é uma esteira movente que nos carrega para além da dor e da existência. Somos precariamente, provisoriamente, num jogo que a vida possa parecer, levados a acertar os passos que uma nova vida nos impele a continuar.

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PORQUE EU AMEI de Roque Neto

RESENHA CRÍTICA de PORQUE EU AMEI do escritor ROQUE NETO

…Hoje vi você chorar.

Suas lágrimas contam uma verdade

Que não consegui compreender

Desculpe-me, também chorei!

Pelo que podemos ser Apesar dos segredos que escondemos…

 

 

Ainda estou de olhos sujos – expressão metaforicamente usada pelo escritor –, ainda atordoado com toda a trajetória de José Lucas. E este nome ficou me perturbando constantemente, vez que sua personagem se desdobrava para viver duas pessoas diferentes.

Desisti ao longo da leitura em quem nomear José, quem nomear Lucas. Mas essa incapacidade não me deixou de sentir toda a sorte de desventuras que este personagem sofreu ao longo de sua trajetória. PORQUE EU AMEI, para um título, é mais do que adequado para este livro do Escritor Piauiense Roque Neto. A justificativa fica mais do que clara quando lemos o epílogo – a epístola confessional de Thomas, amante de José Lucas. Tudo parece ter sentido quando se busca o amor, ou quando se busca a vida!

Thomas é mais do que o objeto do desejo, do amor de José Lucas, ou melhor, do Padre José Lucas. Esta dualidade, esta máscara que José parece usar nada mais é do que uma armadura que a sociedade preconceituosa o, ou nos oprime, oprime a usar. Os papeis sociais ainda são determinados por contratos sociais que fazemos diariamente, e forçosamente, em nome de promessas alheias as nossas. E aí reside todo o drama de nosso protagonista.

O livro é propositadamente entrecortado com passagens entre o presente e o passado, onde essas instâncias parecem provar que sempre José esteve nesta miscelânea, o tempo todo na convivência dialética desses tempos. A família, nordestina, Pernambucana, é apenas um lugar. Ainda que exista um preconceito declaradamente generalizado; é mais contundente sua versão disfarçada. O passado é influência presente na vida de José, ou Padre José Lucas. A primeira experiência sexual, numa manobra chantagista; a confissão de sua sexualidade; a vontade de sua mãe; seu destino; o mister para com Deus parecem coisas substancialmente presentes.

O amor é vivido em diversas formas: o amor pelo sacerdócio; o amor por Duduca; o amor pelo avô; o amor pela coragem de sua mãe; o amor quase paternal de Dom Castelleti; o amor pela busca e ausência do pai; o amor, em sua essência: Eros e Tânatos, por Thomas. Enfim, ainda reforço que PORQUE EU AMEI é um titulo por demais apropriado. Parece que em todos os momentos da vida do Padre José Lucas, sempre havia algum motivo nobre, mesmo quando em sua versão maquiavélica que tentava se desvencilhar das ameaças do Padre Wilson. Este resumia toda a hipocrisia existente nas religiões que apregoam a misericórdia e a retidão como pontos basilares de uma formação humanística e redentora; mas que no fundo se revelam na podridão do ser humano, mesmo debaixo de uma batina.

No entanto, dentro da trama de Roque Neto, esses detalhes da hipocrisia e do preconceito são sutilmente revelados, bem como todo seu hercúleo trabalho para enfrentá-los são demonstrados de uma forma altruística e humana. Não parece existir mal em José. Talvez por isso nos enfileirássemos – digo os leitores deste livro – num alinhamento em que nos remete à questão da culpa. Aqui esta parece ser um ponto nevrálgico nesta impressionante obra do autor. Culpa e medo andam juntas. A culpa cristã, revelada nas primeiras e únicas conversas que José teve com Deus – o memento de desespero sempre parece oportuno para estas conversas íntimas. “Por que comigo?” não é nada mais do que uma assunção de nossos próprios erros, mesmo que em nome de algo nobre; seja em nome do amor por Thomas, seja em nome pelo amor a Deus. E em momentos de desgraça sempre nos perguntamos onde estaria este Deus que não nos olhou o caminho.

As últimas páginas de PORQUE EU AMEI nos deixam numa antecipação catastrófica, como se pudéssemos adivinhar o que poderia acontecer com um Padre que se desvirtua de seus primados. Somos, instintivamente, levados por nossos preconceitos internalizados, a acreditar que o final é trágico, que o remédio para todo seu tormento e escolha feita é a morte.

Roque Neto nos prende pela emoção, mesmo que a antecipação seja, por um momento, uma garantia de nossas verdades assumidas. Pegamo-nos longe de uma verdade real. O que importa antes das palavras finais, no espaço entre a conversa com a psicóloga e o epílogo, é que sempre houve uma intenção do amor e uma intenção para a vida.

Estas portas, tanto para o amor, tanto para vida estão sempre abertas para quem acredita que além de tudo possa existir alegria. Ler PORQUE EU AMEI é uma experiência suja, porque ainda me encontro com os olhos todos sujos; é uma experiência epifânica, porque onde há morte há um desejo inalienável de viver.

A primeira e última confissão feita por Padre José Lucas, cônscio de sua escolha, nos deixa triste porque revela o peso da culpa assumida. Mas nos deixa pensar que mais vale a pena viver nossas vidas, em nome de uma verdade egoísta e libertadora, do que viver a realidade dos outros de forma completamente contemplativa.

Por Roberto Muniz Dias

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VIAGEM SOLITÁRIA de João W. Nery

Estes percorreres por aí à balda,

nestes saudosos antigos eus.

Qual deles deixei no meio da estrada e em que sombra,

me perseguem até onde sou?

(Do poema “Corte em mim, João W. Nery)

“Não julgueis um livro pela capa!” É quase um corolário não julgar. É quase silenciadora a linha divisória que separa os reflexos opostos de João e Joana na capa do Livro Viagem Solitária – memórias de um transexual trinta anos depois – de João W. Nery.

Não julgue o livro como apenas um testemunho comum, pois ele é pura fantasia. É a fantasia de Joana sentindo-se Zeca, ou quando já o homem formado, João, fantasia o mundo real – vez que o constructo do mundo real é fantasia plasmada num artefato que nunca será nosso. Estamos sempre nos encaixando no mundo dos Outros. João tentou escapar da fantasia. E em busca por uma comunidade imaginada, o tempo soube, inteligentemente, decantar sua alma na realidade que sempre lhe fora real.

Viagem Solitária está além do testemunho porque não fica no eu diegético conspiratório de sua sorte. Ele entra na poesia; nas epígrafes iluminadoras; nas mulheres salva-vidas; na coragem do não-anonimato; na delicadeza do ser. Quiseram ficcionado seu relato como se fosse uma experiência fantasticamente única, isolada; e somente na criação quixotesca de seu sonho ele poderia sobreviver. Mas foi além, além do que se pode gendrar no resumo ontológico de uma condição masculina; nem mesmo na centralização falo-imaginada, pois seu sexo estava além do corpóreo, do imagético.

E como é libertador encontrar-se fora do exigido e fazer disso um primado teleológico de sua vida. A experiência de ser um leitor deste testemunho é poder enxergar a si além do que pretendíamos sempre ser. E que sempre estaremos incompletos. Mas ler Viagem Solitária é adentrar num mundo de incompletudes até saber-se que sempre seremos uma lacuna personificada. No entanto, João W. Nery vai preenchendo sua vagina desconstruída com o conhecimento de si e da negação do que não entendia o porquê.

“Devido a esta absurda defasagem entre minha autoimagem e a que faziam de mim, descobri, quase que instintivamente, que na fantasia estaria a gratificação de ser reconhecido. Considero essa solução a balsa salva-vidas com a qual consegui sobreviver a tantos desencontros. Delineadas pelas minhas necessidades vitais, moldei-a de uma forma que podia adaptá-la à realidade.” (NERY, 2011,p.35-36)

A infância é sempre uma fonte de descobertas e fantasias e assim, a priori, por meio dessas pequenas mitologias internas é que João se salvava dos perigos do gênero imposto. A consciência e externalização da representatividade Maria-homem o assustava. Tinha a Maria (Joana), mas o homem João ainda era um devir.

A leitura se perfaz num constante desconstruir e construir, erigindo uma imagem metamorfoseada. Apenas o tempo e a paternidade – mais tarde, em certo ponto, infelizmente, a velhice – tornariam João no verdadeiro homem que inventamos.

Não queria falar de sofrimentos, tampouco de como fui instigado a ler o livro para descobrir como se construiu o falo mágico de João – a estatização do ser homem. Pura fantasia minha, eis que o homem em João, sempre houve, sempre existiu. Decepcionei-me comigo mesmo. Mas de forma alguma essa curiosidade ofuscou o brilhantismo na poética-testemunho de João W. Nery. A alma do poeta não poderia se desvencilhar do narrador.

O eu narrativo escolhera o masculino. Estava convencido, em todos os momentos, de que nunca existira a Joana – senão na memória afetiva dos outros – e não soava provocativo, ou revanchista, tampouco autoafirmativo. Era uma voz de escritura singular, de um homem construído no desejo de ser o que queria ser. Eu não mais procurava o famigerado falo mágico. Demovi-me da experiência da curiosidade para adentrar o mundo dele; assumir o papel do Outro, dele mesmo.

Outra leitura, assim, recomeça. A leitura de um homem João, que ultrapassou minhas expectativas como leitor medíocre, buscando uma fórmula para entender, finalmente, o desejo dele. Deparei-me com um homem maduro e que coincidiu com a última parte do livro: Paternidade.

Mas não convém atribuir os papeis sociais já construídos pela nossa sociedade heteronormativa-judaica-cristã.  A forçosa idéia a que somos conduzidos para confeccionar o homem sob os pressupostos do imperialismo dos gêneros, do binarismo, do maniqueísmo suicida. Pai aqui tem conotação outra, sob o esteio de uma psicologia inclusiva, aberta; de um olhar menos parental, sanguíneo ou genético. A adoção do seu filho tem ares de redenção, de reconhecimento, mas acima de tudo, o sentido heróico e materno de ser pai.

Enfim, a leitura de Viagem Solitária de João W. Nery nos permite concluir que não é uma viagem solitária: não viajamos sós, não estamos sós. Há nesse nosso tortuoso jeito de ser, uma legião de indivíduos ou comunidades mais do que imaginadas que possuem os mesmos anseios apagados; os mesmos medos avolumados; os mesmos sonhos não acalentados; a mesma incompreensão cristã. Porém, no final, todos resistem sempre por existirem histórias de perseverança e, sobretudo, coragem de permanecer lutando.

Roberto Muniz Dias

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Um teto todo seu

 

Um teto todo seu

            O texto traduzido fala sobre ‘”teto”todo seu. Mas a versão antiga que tenho do livro em (Penguin, 1945) escreve literalmente “a room of its own”, numa alusão direta ao quarto, ou sala, nesse sentido melhor seria falar em ambiente fechado, por que nem sempre o abrigo de um teto é propicio para o ofício da escritura. E não era muito comum aquela época um teto sem acomodações específicas para um enclausuramento apropriado. Bem poderia funcionar: “um quarto todo seu.” No entanto, isto não diminui em nada o ensaio da escritora; e não deveria, pois estamos falando de Virginia Wolf.

            Logo nas primeiras páginas, fica clara a missão da escritora, em buscar uma resposta ao concreto: Mulheres e ficção. Ela estatiza que a escritora deve ter meios de promover o que seria uma autossuficiência em relação ao homem, e a frase que dá título ao livro logo é explicada sob este fundamento de a mulher ter um lugar para ficar e dinheiro para manter-se. O que não era uma realidade aquela época. A época era 1928 e há pouco mais de nove anos as mulheres conseguiram o direito de votar; e há pouco mais de 37 anos não era permitido äs mulheres possuírem bens.

            Esta tese do teto próprio, ou como eu quero: quarto próprio, desdobrava-se em outras conseqüências. Num ponto de vista inicial, essa ausência de recursos provêm da pobreza a que a mulher estava submetida, bem como estiveram suas antepassadas. O capitalismo tem sua parcela, enorme, de culpa centralizando os homens como detentores dos meios de produção. A presente revolução industrial propiciando a especulação financeira, os grandes bancos, os banqueiros. Enfim, os homens abastados é que possuíam os meios de promover a escrita, a sua escrita. Nesta busca empreendida pela escritora para a conflituosa resposta sobre Mulheres e Ficção, ela empreende pesquisa bibliográfica para constatar que isto era privilégio dos homens. “Por que homens bebiam vinhos e as mulheres água?” Este questionamento vinha em direção a outra situação em que a pobreza se centrava. Esta condição está ligada a força que o outro sexo impõe ao mais “pobre.”

            Seguindo sua pesquisa, saindo dos campos imaginários de Oxfordbridge, e agora em Londres no Museu Britânico (procurando uma resposta cartesiana) ela se pergunta, por que tantos livros tematizam os homens. “…quantos livros são escritos por homens?”e continua: “Estão cientes de serem, talvez,  o animal mais discutido do universo?

            As pesquisas bibliográficas rendiam histórias do registro insignificante acerca da mulher em si ou de seu papel como pensadora. Perde-se e se encontra nas palavras de Samuel Butler: “Os homens sábios nunca dizem o que pensam das mulheres.” E entre tantas depreciações, encontra vozes que exortam a mulheres como Goethe, num quase unitário exemplo.

            Então ela se fixa no que fora produzido no período elisabetano de Shakespeare, e como ela se assume desconhecedora de um único relato sobre a escritura feminina nesse período. Engraçado que ela flerta com a prosa e uma espécie de confissão em sua imaginação, quando inventa Judith, irmã de Shakespeare, inventada para concluir que mesmo que sua escrita fosse maravilhosa, ela seria ou teria sido privada dos estudos, não conheceria Virgílio, nem gramática e ainda teria que lidar com os afazeres domésticos. Seria tão talentosa quanto o irmão, mas todos os seus esforços para demonstrar seu talento seriam menosprezados pela família. Então, em leve desespero, ela foge, apresenta-se num teatro, sendo ignorada, para depois prostituir-se e suicidar-se.

            Mas Virginia se ressentia de um passado que ela mesma não necessariamente seria tributária, vez que recebia uma pensão da tia, e futuramente, ou já a essa época, já vivia as expensas do marido editor. Isso a promovia uma certa estabilidade metalingüística, falando assim, nesse caso em que advoga pelo “teto”e a renda fixa.

            Li alguma coisa sobre “Um teto todo seu” e verifiquei uma opinião plausível, que logo concordei prontamente, Virginia Wolf, neste ensaio, promovia uma espécie de feminismo dócil. Neste mesmo texto o autor se interroga se existe esta espécie e se convence que não se trata de um feminismo dócil e sim um da estirpe inteligente, fino e de resultados. E de fato nem parece os discurso inflamados das feministas da segunda onda, tampouco o discurso de cunho filosófico das francesas. É irônico e ao mesmo tempo contundente no que diz respeito às raízes da origem da opressão, no capitalismo, no controle majoritário dos homens na sociedade. Ela afirmaria que, embora existisse uma senhora que pudesse ter meios e liberdade para escrever m livro, esta seria tida como monstro por desafiar os destinos de sua sexualidade.

            Na fase de pesquisa ainda a procurar o que as mulheres têm escrito, ela adentra o século XIX, destacando Brontë e Austen. Há uma certa exortação a esta última em detrimento do brilhantismo da segunda. Nas próprias palavras de Wolf, Austen escreve: “sem fanfarronices e sem ferir o sexo oposto, poder-se-ia dizer que Orgulho e Preconceito é um bom livro.” Ela fala de uma Austen sem dificuldades, como limitações, senão as que naturalmente ela se impunha. Seu texto era livre de rancor, diferentemente de Brontë que era rancorosa e escrevia com certo protesto- especialmente em Jane Eyre. E por esta razão, segundo Wolf: “percebe que jamais conseguiria expressar seu talento integral e completamente…escreverá sobre si mesma quando deveria escrever sobre seus personagens.” Aí reside sua falha. Mas me indago se não seria justo o autor se envolver com todo o exagero e liberdade, sobre uma causa genuinamente sua? Bem, isso requer que Wolf revisse as questões dos discursos  em que na narratologia este papel do autor é indissociável dos personagens.

            Enfim, de volta a pesquisa de Wolf, seu radicalismo eufêmico, mais adiante, vai advogar por um romance que: “se afigura como criação dotada de certa semelhança especial com a vida embora, é claro, com inúmeras simplificações e distorções (então por que ela ataca Brontë?) “A vida conflita com algo que não é vida!”

            Esta revolta de Brontë distancia de uma teleologia, desvirtuando seu trabalho, não distinguindo  entre o verdadeiro e o falso. Teria sido diferente se Brontë fosse homem? Em que pese a limitação dessas duas mulheres, Wolf elogia o brilhantismo em estabelecer a liberdade em suas mentes.

            No penúltimo capítulo, Wolf se situa em seu tempo e conclui que: “talvez a mulher esteja começando a usar a literatura como uma arte, não como um método de expressão pessoal.” De novo ela implica com a voz interna do autor (esse discurso apaziguador, que mais tarde ela vai falar em mente andrógina, não me seduz),

            Na pretensa busca ou identificação das falhas substancialmente literárias, ou de uma epstemiologia daquele entendimento sobre a escritura feminina, Wolf promove o embate entre as escritoras Brontë e Austen, dando a esta última uma condição especial em que pese menos talento e páginas da escritora.

            Aí uma outra invenção de sua mente, ou ela mesma disfarçada em Mary Carmichel, imagina um diálogo entre Chloe e Oliver, da qual o eixo de sua pesquisa parece encontrar um momento epifânico por não centrar o pensamento apenas na visão do amor, da paixão, ou o que seja, apenas situando o homem e a mulher. Poderia haver um caminho alternativo de uma situação vivida por duas mulheres. O eterno gostar dos homens pelas mulheres. “O que seria da Literatura se houvesse apenas o mote do interesse de homens por mulheres? Um pensamento extensivo levaria a imaginativa indagação de por que haveria uma Literatura somente feita por homens, e por que não de um amor diferenciado?

            Embora o texto seja coeso em suas diversas e intrincadas mensagens e imagens, Wolf dá saltos, e geralmente, estes saltos aterrissam em variados pensamentos. A questão da criatividade feminina (devido ao longo curso de tempo dedicado as tarefas domésticas) e colocada como uma questão de devir, acerca da educação baseada na diferenças. Depois volta sua divagação para as vidas das mulheres que não foram registradas. E em seu diálogo com a poetisa Mary, ela reflete sobre sua indiferença acerca das  “centésimas qüinquagésimas vidas de Napoleão, ou o septuagésimo estudo de Keats e a simples vida de uma balconista.

           E de volta a Londres de 1928, Wolf, em meio ao agito daquela cidade fervilhando entre pessoas e o burburinho do tráfego, ela se perdia em elucubrações sobre uma mente andrógina, corroborando os pensamentos de Coleridge. No entanto, essa mente não queria dizer simpatia pela mulher, e sim uma mente que transmitisse emoções sem empecilhos. Talvez Shakespeare o fosse assim.

            Na batalha dos sexos Wolf advoga por uma escritura que contemple as duas possibilidades. “É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculino.” Nem muito feminino quanto pôde ser Proust. “A totalidade da mente deve estar escancarada, se quisermos ter o sentimento de que o escritor está comunicando sua experiência com perfeita integridade.”

            E como se todos estivessem esperando pela última (um certo tom misógino senti nestas últimas páginas) palavra, as recomendações vêm em tom severo. Ela alerta para as barreiras conceituais sobre o ofício, mas brilhantemente, conclama para que essas dificuldades não sejam empecilhos para que se promova uma escritura feminina. Em que pese todas as admoestações é necessário deixar-se tomar pela irmã fictícia de Shakespeare: “mas ela vive, pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas de oportunidade de andarem ente nós em carne e osso.”

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Assis Brasil é do Brasil

Os que bebem como cães

Assis Brasil- escritor brasileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De volta a Teresina, e sou tomado pelas lembranças do passado que pareciam mortas num calabouço da memória. Voltei e vi uma Teresina nova, mas ainda assim as recordações do passado é que me deram a sensação de nada do que vivi está morto.

É inevitável que não se procure as fotos, as anotações, as coisas mais antigas. E nessa busca simplória por recordações registradas, deparei-me com minhas gavetas de guardados. Ali, encontrei fotos, pedaços de papel, agendas. No entanto, o que mais me fascina são os reencontros com os livros velhos que meu pai cuida como maior carinho em sua biblioteca particular. Dá vontade de literalmente afanar alguns exemplares.

Mas fui em busca de minhas caixas e gavetas velhas. Encontrei um monte de livros datados e assinados – assim como fazia meu pai em seus livros. E, coincidentemente, encontrei alguns exemplares dos livros de bolso da Ediouro, e entre eles os livros Beira Rio, Beira Vida e Os aue bebem como os cães. As datas conferiam ao livro os idos de 1996, a esta época estava em meus estudos pré-vestibulares, e por esta razão, a obrigatoriedade das leituras de escritores piauienses como Assis Brasil e H. Dobal. E quanta surpresa nesse reencontro. Sem falar no livro que tenho dele que faz uma compilação da poesia piauiense do século XX, autografado, quando ainda iniciava meus estudo de Direito e Letras pela UESPI. Quantas lembranças.

Por esta razão, tendo a visita a minha terra natal, que me propus a reencontrar esses livros e essas leituras. Estou consumindo a leitura de Os que bebem como cães, vencedor do prêmio Nacional Walmap de 1975 e do Prêmio Joaquim Manoel de Macedo de 1976. Prêmios que atestariam toda a genialidade e produtividade do autor piauiense, que mais poderia ser um escritor universal, sem terra, cidadão de qualquer terra que abrigue a literatura de calibre. Sou piauiense, mas me incomoda esta tarja por sobre um trabalho profícuo que assoma mais de 120 títulos, ensaios e crítica literária. E ainda há muito fôlego para esse piauiense, escritor do mundo. Tanto que esta lançando novo livro A cura pela vida ou a face obsecura de Allan Poe, um embate coloquial entre dois intelectuais onde filosofia e psicologia são temáticas discutidas, mas com a facilidade de um escritor que sabe bem usar as palavras de forma simples. Não rebuscado, mas recheado de paráfrases, pensamentos e reflexões.

Assis Brasil é por si só um sobrevivente a tempo e a boa literatura, quase no ostracismo ingrato de seu real valor, mesmo assim produzindo e escrevendo.

Fica aqui, uma singela homenagem ao escritor, crítico e ensaísta bra-si-lei-ro, não à toa Assis BRASIL, que amanhã fará aniversário.

 
 

 

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O Caderno de David

 

O Caderno de David de Daniel Caldeira

Podemos nos livrar de nossas tragédias internas, apenas fugindo da contingência espaço-temporal? Ou apenas deixar-se esquecer de seu verdadeiro destino? Essas perguntas se formulam o tempo todo dentro da cabeça de Léo: ou enquanto se lembra de David, ou quando intenta seu suicídio, ou quando se envolve em novos braços do amor.

E o mote: Sara que era casada com Léo, que amou David, que amara Leonel, este ultimo ama Júnior, que é filho de Léo, que ama Pedro, que tem HIV- que não morreu de AIDS- e que mora com Alice, que é mãe de David e que abrigou Léo, este não aceita as vicissitudes da vida-; poderia facilmente resumir o fio condutor da história: a tragédia. Mas parece ser o amor – ou a falta dela que ronda a tragédia pessoal de Léo. Talvez seja sobre a herança e o legado deixado ao filho. Talvez a resposta para os problemas de Léo esteja no Caderno de David.

Caderno de David empresta o título ao primeiro livro do escritor Daniel Caldeira (Editora Lexia, São Paulo, 2010, 314 páginas) e relata a história de Léo e sua problemática em aceitar sua sexualidade. No caderno, David deixa um legado de pensamentos sobre homossexualidade, família, religiosidade e amor ao próximo, tudo na intenção de ajudar o namorado a aceitar sua sexualidade. Tarefa difícil para ele que se vê humilhado pela família, abandonado, num desterro de sua própria dignidade. A nova pátria seria sua consciência e assunção de seus erros; os pequenos erros sobre amor.

Por meio dos capítulos elaborados na essência dos acontecimentos, Daniel Caldeira enreda os fatos numa linguagem atual e realista; as ideias contidas antecipam no leitor o desencadeamento da história, que a cada página intensifica os fatos da tragédia de Léo – uma sequência plausível e tocante. Os diálogos são transparentes e repletos de dramaticidade. Ao final, no capítulo O RECOMEÇO, Daniel encerra o pensamento que poderia funcionar como a moral da história, num clichê epifânico: “O mais mágico da vida é que sempre poderemos recomeçar, quantas vezes forem necessárias.” Mas o verdadeiro cerne está além.O recomeço – e a dor sublimada; e por que não o Caderno de David? – transformara Léo num escritor renomado. As perdas e os ganhos que a vida promove, repercutiram, reverberaram dentro dentre, ao ponto de transformá-lo num homem mais maduro, mais consciente.

A leitura de Caderno de David, numa linguagem ultrametalinguística, leva-nos a confrontar nossos medos e inseguranças que se apresentam em nossa vida, mas não deixando que um legado póstumo seja a resolução para o entendimento final. A resolução de nossos problemas está na condição que assumimos no enfrentamento diário de nossos problemas. David legou a Léo sua experiência além do caráter pedagógico; além do caráter altruísta, permitindo que apenas o seu amor pudesse encontrar o verdadeiro objetivo do seu epitáfio.

Não há um epílogo em si para o livro de Daniel Caldeira. A sugestão é de que se deve sentir cada página na sua essência disciplinar, reafirmando os compromissos e as ausências que promovemos diante de nós e dos outros. Abraçar o filho; dar o beijo de boa noite no filho, amante, parceiro ou amigo; dizer que ama; sentir-se no papel do outro, são conclusões simplórias para um provável final feliz. Mas a felicidade está nos cadernos de David- cadernos de Henrique- que abrimos em certa página de nossas vidas.

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Mário Faustino

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A poesia intertextualizada de Mário Faustino tornava sua poesia um repositório de referências aos poetas gregos, inclusive com registros na língua grega. O contato com uma literatura diversificada permitia que ele criasse poemas de difícil acesso. Mas isso não tornava sua poesia menos deliciosa. O Homem e sua hora representa este rebuscamento poético influenciado por sua compulsão literária pelos clássicos. O livro foi publicado em 1955, divide-se em três partes: “Disjecta Membra” (do latim, membros dispersos), “Sete Sonetos de Amor e Morte” e “O Homem e Sua Hora”.

Mas o tema deste post é o outro lado de Mário Faustino: sua verve como crítico literário, como responsável por uma coluna no Suplemento Dominical do Jornal do Brasíl, na qual discutia a produção e a crítica literária. Em Mário Faustino De Anchieta aos Concretos, a organizadora Maria Eugenia Boaventura, faz um apanhado documental de todas as publicações do suplemento do Jornal do Brasil. Sob a epígrafe de Poesia-Experiência, Faustino construiu uma maneira própria de realizar a crítica literária. Pelas minhas leituras- por outras fontes- descobri que ele criticara até mesmo o trabalho de poetas consagrados como Manuel Bandeira; este em represália escreveu um poema indecoroso que deveras enfraqueceu ao debate. Mas Mário conseguiu se firmar como intelectual e crítico respeitável. O suplemento contemplava poetas renomados bem como os novos poetas, na coluna “Poeta Novo”

Neste livro, Boaventura faz uma organização das críticas obedecendo a um cronograma dos movimentos literários que se observaram no Brasil. Não escaparam de suas críticas as poesias do período colonial, entre os escritores representativos destaca-se José de Anchieta. Adentrou as poesias modernistas, revelando seu verdadeiro apreço pelas poesias de Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto. Embora fosse claro em suas depreciações, não media palavras para registrá-las. Passou então pela Geração de 45, a qual repudiou alguns trabalhos e estatizou acerca da falta de profissionalismo de alguns representantes desse período. Na coluna “Poetas Novos” deu espaço aos poetas desconhecidos, para os quais era entusiasta da honestidade existente neles. Quanto ao Concretismo, o qual anunciou como o acontecimento  necessário para livrar a Literatura do “marasmo discursivo sentimental”, abraçando com todas as forças as poesias de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos.

Enfim, para aqueles – e não somente estes – que promovem a análise e critica literárias, a leitura deste compêndio histórico empreende um apanhado minucioso do trabalho de um jovem piauiense que soube bem- a seu favor a leitura interna de seus livros- apurar de forma lúcida as contribuições da poesia em sua época. A compilação da organizadora traz à tona a memória de um dos mais promissores críticos brasileiros.

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FUN HOME ( Uma tragicomédia em família) de Alison Bechdel

 

Que pena – ou será sorte? – ter sido presenteado com o livro de Alison Bechdel  só agora.  Talvez resida uma coincidência mística, justamente por nossas histórias se assemelharem em tantos pontos – parece subsistir uma espécie de premunição programada- e divergirem em pontos ainda a mim não esclarecidos. O fato é que o livro FUN HOME (um dos primeiros livros a harmonizar quadrinhos e relato autobiográfico) é um registro minucioso de uma vida costurada com remendos de sentimentos que deveriam ser completos. A relação da pequena Alison e seu pai nunca foi um modelo de harmonia; melhor dizendo, a família de Alison se harmonizava na falta de diálogo. De um lado o pai, o Dédalus de Homero, austero, silente e apaixonado pelo silêncio de sua perfeição com a arte da decoração; do outro lado, a mãe, a Isabel Archer de Henry James, ausente.

FUN HOME poderia ter uma outra analogia e não somente a tradução literal, lar das graças. Mas ela poderia ter tido uma adaptação mais apropriada para o seu título, como, talvez, a Casa Funerária, por duas razões. A primeira se daria por conta da propriedade ter estilo neogótico; ou por conta de um silencio sepulcral sempre habitar naquela casa, os diálogos; e a segunda razão reside no fato de o negócio da família envolver com trabalhos funerários. Essa dicotomia conceitual revela mais do que uma tautologia despropositada.

Alison é lésbica, ou sempre fora, como quis sugerir seu pai a entregar-lhe o livro da autobiografia de Collette para compreensão da Paris dos anos 20. No entanto, era uma mensagem subliminar para que Alison entendesse como viviam as mulheres “conturbadas”. Aliás, a literatura era o refúgio, e, nela, o aprendizado para a vida vinha de forma poética e reveladora. A ficção parecia o mundo no qual seu pai sabia bem se desenrolar, já a realidade era comprometida pelos seus medos. Medos que são enredados em toda a literatura que passa pelas mãos ávidas de Alison. Em Joyce, ela encontra os paralelos da existência de um pai espiritual e um pai físico. Stephen e Blomm encenam uma busca para um paternidade que não existe, tal qual com Alison e seu pai que se afastam – mais do 20 anos, pois este tempo em FUN HOUSE parece imensurável- numa distância presencial que somente com a morte do pai, ou pouco antes dela, é resgatada. E é no final, já adolescente, que Alison descobre a bissexualidade do pai, ou a homossexualidade  que ela preferia acreditar porque tornava o pai mais próximo, numa relação edipiana ao revés.

O livro FUN HOME é uma leitura tragicômica como diz o próprio subtítulo e também uma leitura além do tom autobiográfico. Ao misturar suas anotações e suas referências biográficas, o conjunto alcança registro de pura literatura. Há poesia nas palavras de Alison e nos quadrinhos que ensaiam, por exemplo, a visão de um por do sol, ou a lápide de seu pai,  ou ainda no desfecho do livro em que ela registra:

“ E se Ícaro não tivesse caído no mar? E se tivesse herdado do pai o dom para engenhosidade? O que poderia ter criado? Mas ele caiu no mar. Porém, na difícil narrativa reversa que impulsiona nossas histórias entrelaçadas, ele estava lá para me pegar quando saltei.”

Desnecessário dizer que as imagens (quadrinhos)- não só neste momento útlimo- são imprescindiceis de ver.

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Os Beats

Seguindo a onda dos graphic novels, os BEATS é uma biografia em quadrinhos narrando os fatos mais importantes das vidas de seus idealizadores-mentores. William S. Borroughs, Allan Ginsberg e Jack Keuroc são as personagens mais ilustres dessa história que invade as nuances mais insólitas e inusitadas das vidas desses precursores da geração beatnik.

A história se desenrola pelas mãos do roteiristas Harvey Pekar (autor da série “American Splendour”) que encabeça a lista de escritores. Além dele, Nancy J. Peters, Penélope Rosemont, Trina Robbins, Joyce Brabner e Tuli Kupferberg assinam o projeto. Quanto aos gráficos, outro time de desenhistas como Ed Piskor, Jay Kinney, Nick Thorkelson, Summer McClinton e Jefrrey Lewis, principais desenhistas do momento.

O livro torna pitoresco e memorável o estilo de vida desregrada de seus beatniks mais importantes; uma geração que influenciou o mundo punk e proporcionou a existência de uma literatura irreverente e de vanguarda. Sexo, drogas e ativismo político foram as molas mestras que entremeavam a vida desses ícones mais importantes da geração.

A própria história de excessos- o contato com Timothy Leary e o LSD são mostrados de forma engraçada- e ativismo político é fulcro para a constituição das biografias desses escritores irreverentes. As experiências hedonistas e a incursão pelo mundo das drogas resultaram em suas experiências literárias. On the Road, de Jack Keuroc, ilustra essas aventuras , as mudanças constantes de ideais e de empregos, desnecessário comentar o sexo livre, a homossexualidade como válvula como modelo de ruptura das regras sociais e consumo liberado de drogas.

O Livro se divide em quatro capítulos. Inicia-se pela narrativa da biografia de Jack Kourac, a construção da obra que marcou a geração, On the Road. Em seguida, aborda a vida do beatnik que ficou mais conhecido pela composição do poema “uivo”, poesia mais célebre do guru- o  mais intelectualizado do triângulo, Allan Ginsberg. Na ponta desse mesmo triangulo, fica William Boroughs, talvez o mais “estragado” dos três, pontuando sua participação com uma vida bastante atípica. Compunha o que Hemingway dizia de vida de pobre, mas feliz; a instabilidade financeira o conduziu a vida miserável que incluiu a execução de pequenos assaltos para sua própria sobrevivência; drogas diversas e até a insanidade.

O livro é deliciosamente interessante ao narrar fatos desconhecidos, pitorescos e até mesmo bizarros dessa geração que foi cultuada nos anos 50. As influências foram sentidas na literatura e especialmente na música. Bob Dylan foi um dos mais ilustres seguidores dessa visão hedonista e libertária da geração beatntransgressão dos moldes do conservadorismo da sociedade americana da época, atingindo o subseqüente movimento hippie. Leitura aprazível e necessária.ik; Patty Smith também se deixou influenciar pela movimento.

O livro é deliciosamente interessante ao narrar fatos desconhecidos, pitorescos e até mesmo bizarros dessa geração que foi cultuada nos anos 50. As influências foram sentidas na literatura e especialmente na música. Bob Dylan foi um dos mais ilustres seguidores dessa visão hedonista e libertária da geração beatnik; Patti Smith também se deixou influenciar pela movimento. O livro serve para pincelar e dar um contorno à geração que influenciou a contracultura e afirmou a transgressão dos moldes do conservadorismo da sociedade americana da época, atingindo o subseqüente movimento hippie. Leitura aprazível e necessária.

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BALZAC e suas ILUSÕES PERDIDAS.


Estou a procura de incentivo e inspiração. Há alguns dias, postei no meu blogue um texto que tinha dado como perdido, uma estória que estava desenvolvendo para o próximo livro (veja a estória aqui).
Um escritor perdido numa cidade na qual ele se familiariza com o ambiente, mas não com as pessoas- arredias acerca da exitência de livros- e num café, o escritor retira do seu bolso, um pocket, um pequeno livro. Em seu ritual de leitura, segura em uma de suas mãos um livro de Tchecov, na outra o cigarro e sobre a mesa o café…
A estória tenta se desenvolver nessa interação entre personagens ainda indefinidos, despercebidos, mas que ao passar do tempo, encontram suas devidas falas.
Aí, como que por acaso, um amigo, também escritor, falara de um filho de tipógrafo do interior que se aventura em Paris para fazer fama como escritor. As ilusões e decepções com a vida na capital também tornavam os anseios mais complicados e inatingíveis.
Esta estória está nas narrativas de Balzac que se intitulam ILUSÕES PERDIDAS. Ao revés, minha estória vai se subsidiar no contraponto da personagem principal da primeira parte OS DOIS POETAS. Assim, vou me deleitar com as estórias de Balzac.
Esta edição de capa dura tem tradução de Mário Quintana e Ernesto Pelanda é de 1981 da Victor CIVITA. Comprei num sebo tradicional de Brasília; antes apenas encontrei na CULTURA pelo preço de R$ 72,00 e no sebinho custava apenas R$14,00. No entanto, não interessa. Ter caído em minhas mãos essa única cópia traduzida por Mário Quintana, foi um estímulo real para continuar essa estória quase órfã.

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Um erro emocional

 

O mais novo livro do escritor Cristóvão Tezza, Um erro emocional, não trata apenas de um erro, mas de todos os erros que cometemos quando hesitamos em viver, apaixonar-se, falar o que sentimos.

E a conversa entre Beatriz e o escritor Donetti se fragmenta em pensamentos íntimos divididos com leitor como se eles disputassem sua atenção durante toda a narrativa. Entre as conversas e ilações, somos levados a entrar no mundo de cada personagem que se alterna entre experiências recentes ou reminiscências. 

O escritor consegue desvendar e desnudar os personagens nas suas mais íntimas necessidades e frustrações num recurso de linguagem que revive as narrativas de Wolf, adentrando a mente das personagens como se estes conversassem com o leitor. E ainda há um recurso que coloca a personagem Beatriz numa conversa paralela que, às vezes, se imagina relatando sua experiência recente a essa amiga que não aparece, mas surge no compartilhamento de sua conversa com Donetti.

Confesso que adorei essas conversas- que, às vezes, adentram um mundo muito particular, de difícil desvendamenteo- entre os personagens misturando as leituras internas das atitudes de cada um em relação ao outro. Todos parecem ter cometido um erro emocional ao não se comunicarem intimamente como se revelam em seus pensamentos mais intestinos. Estes erros se comunicam numa falta de comunicação que se realiza no âmbito de suas emoções mais recônditas.  As memórias se refugiam na narrativa do escritor que de alguma forma rememora lembranças mais comuns e mais sutis, mas que refletem na interação do escritor e da sua maior fã.

Os papéis amarelos rabiscados revelam um pouco do escritor que se apaixona pela revisora ideal. Beatriz é essa revisora que conhece todas as linhas do escritor, mas que se resguarda diante da figura materializada dele. E nesse propósito de revisar, ela conhece o escritor cuja obra aprendeu a amar. Por seu lado, Antônio Donetti, decadente e velho, comete o erro emocional ao revelar seu amor.

Por um momento o diálogo entre os personagens rememoram as cenas vividas no apartamento do casal (que funciona como a única noite em que se dá a conversa do romance em questão)  vividos por Grace Kelly e Ray Miland em Dial M for Murder de Alfred Hitcock. As emoções são disfarçadas, como se eles conversassem sobre segredos que nunca poderiam ser revelados. Mas o vinho é um nivelador dessa batalha e coloca em campo os personagens com suas armas mais vulneráveis. Ler Um Erro Emocional e aprender um pouco sobre nossos erros, especialmente o que cometemos e os que a nós são submetidos, para o aprimoramento de nossas atuais relações.

Um erro emocional é literatura madura, repleta de jogos mentais que desanuviam os temores dos traumas.  A incomunicabilidade faz parte das relações interpessoais, mas o cometimento de um erro sempre oportuniza a possibilidade do conserto.

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O QUE ANDO LENDO!

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Estou lendo o mais novo livro de Cristovão Tezza, UM ERRO EMOCIONAL, que autografará na Livraria CULTURA em Brasília-DF.

Estarei lá com o meu exemplar!

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Interlúdio

 

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Interlúdio quer dizer trecho musical entre dois atos, duas cenas, numa peça dramática. Quer dizer, também, intervalos. E são as vozes de Dennis e de Lázaro que se intercalam em seus dramas particulares. E assim se revezam

estas vozes dos protagonistas que se assemelham aos jovens protagonistas de Romeo & Julieta de Shakespearre. Famílias diferentes, histórias diferentes, religiões diferentes. E, em Interlúdio, Romance do escritor James Mcsill, a religião é um forte elemento que conduz a caminhos opostos a vida dos dois jovens apaixonados. Mas não é a religião que conduz a Deus, é a religião fundamentalista que estigmatiza, que discrimina, que segrega. O pano de fundo para essa a história de amor, diferentemente de Shakespeare que se concentra nas paisagens de Veneza, dá-se em diversos lugares, como no Brasil, na Europa, nos EUA, e principalmente nos espaços das almas apartadas.

A cada página do livro de Mcsill conhecemos, com riqueza de detalhes, a história de Lázaro e Dennis, unidos pelo acaso proposital de um postal misterioso. Lázaro se anunciava professor de Inglês e acompanhante. Então, são unidos pela famigerada ligação do algoz de suas vidas o comandante Betts- pai de Dennis. É com a ajuda dos amigos que eles contam para viver clandestinamente o romance proibido.

 A história é alinhavada, à cada página, pelo intricado jogo de pequenos interlúdios dentro própria história; pequenos crimes são revelados; pequenos dramas são desvendados pelos personagens. Tudo se condensa numa narrativa densa, instigante e dramática. Os personagens ganham vida a cada reconstituição do passado. A memória é um grande recurso utilizado pelo escritor para revelar os desejos e sonhos dos protagonistas. O tempo é outro elemento utilizado, no qual os pensamentos são revelados na constância das reminiscências e da realidade.

 A história em si é perturbadora nas passagens em que o Pai de Dennis, John, inflige ao filho seu fundamentalismo radical contrário a homossexualidade do filho revelada no amor incondicional por Lázaro. O abuso sexual, o prego que atravessa os olhinhos de Joãozinho, são cenas inesquecíveis. Os recursos utilizados pelo pai pra distanciar os amantes são quase inimagináveis, levando a práticas obsoletas de psiquiatria, como a lobotomia, para fazer com que o filho esqueçesse o amor latente. Dennis sofre nas mãos do pai. Lázaro sofre com a distância. Os dois sofrem com as informações truncadas; com corações vinculados.

 Cada voz do livro é ouvida com amplidão, com um eco dentro da alma. Reverbera dentro de nós leitores as vozes dos protagonistas que tentam se ver livres de um passado, ao mesmo tempo, feliz e opressor. Nas entrelinhas observa-se o antever de uma grande história de amor. Colocamos-nos a postos para antever a vitória do amor, em que pese os percalços típicos dos grandes histórias de amor. E mais uma vez o amor não tem sexo; não tem religião. As determinações maniqueístas revelam que no embate o bem, racional, sempre vencerá no final. E ainda sobre a história das vozes, intercalas nesse interessante interlúdio, o tempo é o grande ator. O tempo passa, muitos anos se passam, e o amor parece ainda intacto. Lázaro, a certa altura, pondera: “Que mundo era aquele em que vivia, que acabava e recomeçava sem aviso?” Mas sabiamente, o escritor conduz a história para que o aviso do final feliz estivesse mais perto do que ele podia imaginar. Lázaro, como que renascido de suas chagas reencontra o amor. E mesmo que sua outra metade, Dennis, se recusasse a lembrar de tudo que havia acontecido, devido às sessões de lobotomia, o amor e a lembrança estavam guardados na memória emotiva.

 Interlúdio é, na minha opinião, um romance épico que reconstroi a história de dois homens unidos pelo amor e separados pelo preconceito. São gigantes como Atlas, carregando o fardo da culpa e da dor sobre as costas, sopesando cada dor como aprendizado. É uma oportunidade para refletir que a justiça de Deus não tarda. E ainda, que o Deus, sempre benevolente, perdoa aqueles que nunca entenderam o amor. As almas se repartem para que, depois dos embates emocionais, depois das lutas diárias com a vida; a reconfortante e redentora força do amor prevaleça.

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Luka e o fogo da Vida

Quando estive na FLIP deste ano, Salman Rushdie fez o lançamento mundial de seu livro Luka e o fogo da vida diante da platéia. Pegou suas anotações e escolheu um trecho da história para ler. O trecho escolhido é uma verdadeira homenagem, revelando sua alegria com o nascimento de seu filho mais novo que também se chama Luka. Depois de ler esse trecho, pediu que seu filho subisse ao palco e o apresentou a plateia. Salvo engano, lembro de Salman ter dito que pela primeira vez seu filho havia lido um livro seu e completou que Luka e o fogo da vida era um livro feito para Luka, pois o irmão mais velho já tinha sido presenteado com um livro. Então, ele concluiu que este livro era o resultado de sua cobrança. O livro era para Luka.

“Soraya pegou o bebê de volta e acalmou o pai. ‘ O nome dele é Luka’, ela disse, ‘e esta maravilha significa que parece que nós trouxemos ao mundo um sujeito capaz de fazer o próprio tempo voltar atrás, de fazer o tempo correr para o lado errado e nos deixar moços de novo.”

Talvez fosse esse o desejo de Salman, voltar o tempo e reverter o curso de todo o processo inimaginável que ele tem suportado até então, vivendo refém de sua própria Literatura, inventando um mundo mágico onde seu filho pudesse lutar por uma sua causa, libertando o pai do sono profundo, do silêncio profundo. Indo além, talvez ele necessitasse desse menino para que o mundo descobrisse que não se pode calar uma Torrente de Palavras, nem fazer parar o curso do Mar das Histórias, tampouco retirar o verde dos pastos ao redor da Montanha do Conhecimento.

Salman coloca nas mãos de seu filho o recorrente desejo de extensão das vontades internas, instigando a aventura como meio de superação de medos, inseguranças e imaturidade. Nessa história fantástica cheia de deuses e semideuses, monstros e seres mitológicos, a imaginação flui no curso da imprevisibilidade da vida; enfrentando as fases do vídeo game como se fossem todas as vicissitudes da vida real. E nessa aventura criada pelo escritor, a meta é alcançar o fogo da vida para que o Pai, contador de histórias, não perca a razão para continuar vivendo que é contar suas fábulas; suas verdades.

Definitivamente, Luka e o fogo da vida não mente quando diz que esse livro se destina a todo público jovem. Público este, que ainda necessita do viés da fantasia para reconhecer algumas características do mundo adulto. Responsabilidades; o novo; a liberdade- e a liberdade de expressão está embutida-, tudo isso faz parte de um conjunto maior que constrói o verdadeiro sustentáculo para a vida.

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Kimitake Hiraoka – harakiri premeditado.

 

Escarafunchando a Revista Eletrônica da Cultura, deparei-me, novamente, com Yukio Mishima, escritor que um amigo meu adora. Esse também tá na lista. E acho que vou ler antes daqueles antiormente comentados.  A sinopse desse livro,  Pavilhão Dourado, mistura uma plêiade de microestórias dentro de um drama só. Vale a pena conferir:

“Mizoguchi, adolescente inseguro, introspectivo, que sofre de gagueira e é incapaz de estabelecer verdadeiras amizades, encontra refúgio para suas aflições. Quando conhece Kashiwagi, deficiente físico mais experiente no mundo e no sexo, Mizoguchi desperta para o que chama de mal absoluto. O conhecimento do mal, associado à ideia de perfeita beleza, princípio básico do Pavilhão Dourado, faz com que o jovem alimente sonhos de destruição e autodestruição, conjecturas sexuais e reflexões sobre o significado dos valores universais, numa tortura mental que revela que o mal e a beleza não estão tão distantes quanto parecem. ”

P. S. Sinopse retirada da Revista Cultura

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LIVROS QUE QUERO LER

 

Outra visita a Cultura e me pego rodopiando aquelas grandes araras de livros, como se fossem roupas que pudesse usar todos os dias; bastava-me apenas escolher. Oh, como queria que fossem roupas de meu armário particular. E nessas andanças- ou melhor, rodopios- ficava procurando coisas novas pra ler. Então me ofertam Meg Cabot. Poxa,  como ela tem livros escritos, mas todos muito direcionados ao mundo feminino, aquele das princesinhas. Lendo a orelha, descubro que livros dela foram base para script de filmes diversos. Entre eles a série Diário de uma Princesa. Mas ainda não era a leitura que procurava.  Precisava de uma leitura mais madura, mas não tão suicida como de um autor que não me recordo o nome, mas que trava uma verdadeira luta metalinguística , misturando sua arte e sua prosa. Um escritor em meio as seus delírios literários e suas compulsões humanas. Muito forte, pensava.

 Aí, aventurei-me nos autores “novos”, os premiados, como uma chilena, melhor, naturalizada brasileira.

 …vou lembrar o nome depois.

 Encontro então Cachalote do Daniel Galera o qual conheci nas Vanguardas Literárias promovida pela TV Uol. E a proposta de Cachalote é bacana, uma tendência entre as editores de quadrinizar- transformar em HQ- ficções renomadas. Este, estou namorando para próxima leitura. Vai ser bem interessante ver o texto de Galera e os quadrinhos de Rafael Coutinho. Este está na lista.

Aquela escritora de antes é… Carola Saavedra e o livro é Paisagem com Dromedário. Pesquisando sobre ela, tem um blog que a intitula como ex-suicida e a coloca entre outras escritoras com tal perfil. Mas de longe o último livro dela permeia essa possibilidade. Uma mulher com seu gravador, registrando os sons, as palavras que a cercam e também as histórias: dela, do marido e a da empregada sitiados numa ilha. Adoro esses registros nos livros que misturam a prosa com anotações poéticas e fotográficas. E Saavedra usou os registros sonoros. Também quero lê-lo.

 Eram tantos títulos. Lembrei-me das dicas do Luciano Trigo, o livro de Frida Kahlo. Mas não me interessa fotografia nesse momento, apesar da história dramática e colorida de Frida.

 Meu Deus! É tanta coisa que não sei o que escolher. Muitos anônimos; assim como eu. Muitos clássicos com os quais já estou em débito há anos.

 J. M.  Coetezee com suas trilogias das quais apenas li Infância. Tem o mais novo em que ele se mata, fala na terceira pessoa morta. 

 Acho que minha procura vai ser infinita. Mas vou me dar o prazer de ler esses autores novos cheios de ideias novas. E quem sabe, colocar algumas análises por aqui para iluminar algumas leituras.

 Até a próxima.

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Hello world! Alô Mundo!

Num desses momentos de ócio criativo, tive uma idéia que – pelo menos para mim- pareceu interessante. Sempre tive a necessidade de dividir minhas impressões, idéias e meus livros com meus amigos mais próximos. Mas sempre pensei que talvez fosse parcial esta análise, invariavelmente eles achariam as impressões, idéias e meus livros interessantes, devido ao fato da amizade e da falta de compromisso com elementos mais específicos dos livros, por exemplo. Daí, tive a ideia de compartilhar essa vontade de ter meus livros lidos por pessoas diferentes- não inimigos necessariamente- mas pessoas distantes, isentas e que pudessem falar sem medo de uma repreensão ou da perda de uma amizade. Então estou disponibilizando esse espaço para colocar seu livro a prova. Comprometo-me a ler, resenhá-lo e criticá-lo; ou pelo menos dar uma opinião sobre seu trabalho. Depois dessa primeira fase, faço a divulgação no blog disponibilizando a capa e a resenha aprovada. É isso aí. Vamos ver se vai dar certo!

Então quer ter seu livro lido? Manda seu livro, mas tem que ser o original, okay?

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Folhetim LGBT no WATTPAD

Esta galeria contém 1 foto.

Publicado originalmente em Sem Festas Póstumas:
Leia o Romance aqui

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Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 1.800 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 30 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

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