FUN HOME ( Uma tragicomédia em família) de Alison Bechdel

 

Que pena – ou será sorte? – ter sido presenteado com o livro de Alison Bechdel  só agora.  Talvez resida uma coincidência mística, justamente por nossas histórias se assemelharem em tantos pontos – parece subsistir uma espécie de premunição programada- e divergirem em pontos ainda a mim não esclarecidos. O fato é que o livro FUN HOME (um dos primeiros livros a harmonizar quadrinhos e relato autobiográfico) é um registro minucioso de uma vida costurada com remendos de sentimentos que deveriam ser completos. A relação da pequena Alison e seu pai nunca foi um modelo de harmonia; melhor dizendo, a família de Alison se harmonizava na falta de diálogo. De um lado o pai, o Dédalus de Homero, austero, silente e apaixonado pelo silêncio de sua perfeição com a arte da decoração; do outro lado, a mãe, a Isabel Archer de Henry James, ausente.

FUN HOME poderia ter uma outra analogia e não somente a tradução literal, lar das graças. Mas ela poderia ter tido uma adaptação mais apropriada para o seu título, como, talvez, a Casa Funerária, por duas razões. A primeira se daria por conta da propriedade ter estilo neogótico; ou por conta de um silencio sepulcral sempre habitar naquela casa, os diálogos; e a segunda razão reside no fato de o negócio da família envolver com trabalhos funerários. Essa dicotomia conceitual revela mais do que uma tautologia despropositada.

Alison é lésbica, ou sempre fora, como quis sugerir seu pai a entregar-lhe o livro da autobiografia de Collette para compreensão da Paris dos anos 20. No entanto, era uma mensagem subliminar para que Alison entendesse como viviam as mulheres “conturbadas”. Aliás, a literatura era o refúgio, e, nela, o aprendizado para a vida vinha de forma poética e reveladora. A ficção parecia o mundo no qual seu pai sabia bem se desenrolar, já a realidade era comprometida pelos seus medos. Medos que são enredados em toda a literatura que passa pelas mãos ávidas de Alison. Em Joyce, ela encontra os paralelos da existência de um pai espiritual e um pai físico. Stephen e Blomm encenam uma busca para um paternidade que não existe, tal qual com Alison e seu pai que se afastam – mais do 20 anos, pois este tempo em FUN HOUSE parece imensurável- numa distância presencial que somente com a morte do pai, ou pouco antes dela, é resgatada. E é no final, já adolescente, que Alison descobre a bissexualidade do pai, ou a homossexualidade  que ela preferia acreditar porque tornava o pai mais próximo, numa relação edipiana ao revés.

O livro FUN HOME é uma leitura tragicômica como diz o próprio subtítulo e também uma leitura além do tom autobiográfico. Ao misturar suas anotações e suas referências biográficas, o conjunto alcança registro de pura literatura. Há poesia nas palavras de Alison e nos quadrinhos que ensaiam, por exemplo, a visão de um por do sol, ou a lápide de seu pai,  ou ainda no desfecho do livro em que ela registra:

“ E se Ícaro não tivesse caído no mar? E se tivesse herdado do pai o dom para engenhosidade? O que poderia ter criado? Mas ele caiu no mar. Porém, na difícil narrativa reversa que impulsiona nossas histórias entrelaçadas, ele estava lá para me pegar quando saltei.”

Desnecessário dizer que as imagens (quadrinhos)- não só neste momento útlimo- são imprescindiceis de ver.

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Sobre Roberto Muniz Dias

Roberto Muniz Dias é piauiense radicado em Brasília há 10 anos, é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93a Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe - O Mocinho ou o Herói podem ser Gays”; Errorragia: contos, crônicas e inseguranças; Urânios; A teia de Germano; Uma cama quebrada (peça de teatro); Trilogia do desejo (coletânea de romances) e recentemente foi premiado pela FCP (Fundação cultural do Pará com o texto teatral AS DIVINAS MÃOS DE ADAM) como melhor texto teatral. Lançou recentemente o livro EXPERIENTIA, coletânea de suas primeiras peças de teatro. www.robertomunizdias.com
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4 respostas para FUN HOME ( Uma tragicomédia em família) de Alison Bechdel

  1. Luigo Legna disse:

    Mandar o livro por correio fica difícil, pois só o tenho em formato digital, deverias aceitar livros em Word, PDF,doc,ebook, e outros por e-mail. Assim tornaria mais fácil ainda a difusão das obras. Sei que para sua leitura seria ruim, mas seria um sacrifício valido se tornares teu blog famoso.

    • Luigo Legna disse:

      Ah, se não quiser aceitar o comentários como valido, tudo bem, é só uma dica para o autor do site, que alias é muito bom e funcional, se não fosse “os correios”.
      E outra nem foi um comentário sobre o livro acima.!
      Mas pode entrar em contato por email. equipeluigolegna@gmail.com.br

      • Prezado Luigo,

        Todos comentários e críticas são aceitos, como forma de melhorar o trabalho que desenvolvo. Por esta razão, prefiro receber o arquivo – quaisquer que sejam- fisicamente. Também é uma forma de eu controlar o volume de livros que recebo. Portanto, ficaria feliz se recebesse seu livro pelos correios.

        Obrigado,

        Roberto Dias

  2. Rodolpho disse:

    Pretendo comprar Fun Home o livro lançado pela Conrad Editora. Quem puder ajudar meu e-mail rodolphoherege@hotmail.com

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