O Caderno de David

 

O Caderno de David de Daniel Caldeira

Podemos nos livrar de nossas tragédias internas, apenas fugindo da contingência espaço-temporal? Ou apenas deixar-se esquecer de seu verdadeiro destino? Essas perguntas se formulam o tempo todo dentro da cabeça de Léo: ou enquanto se lembra de David, ou quando intenta seu suicídio, ou quando se envolve em novos braços do amor.

E o mote: Sara que era casada com Léo, que amou David, que amara Leonel, este ultimo ama Júnior, que é filho de Léo, que ama Pedro, que tem HIV- que não morreu de AIDS- e que mora com Alice, que é mãe de David e que abrigou Léo, este não aceita as vicissitudes da vida-; poderia facilmente resumir o fio condutor da história: a tragédia. Mas parece ser o amor – ou a falta dela que ronda a tragédia pessoal de Léo. Talvez seja sobre a herança e o legado deixado ao filho. Talvez a resposta para os problemas de Léo esteja no Caderno de David.

Caderno de David empresta o título ao primeiro livro do escritor Daniel Caldeira (Editora Lexia, São Paulo, 2010, 314 páginas) e relata a história de Léo e sua problemática em aceitar sua sexualidade. No caderno, David deixa um legado de pensamentos sobre homossexualidade, família, religiosidade e amor ao próximo, tudo na intenção de ajudar o namorado a aceitar sua sexualidade. Tarefa difícil para ele que se vê humilhado pela família, abandonado, num desterro de sua própria dignidade. A nova pátria seria sua consciência e assunção de seus erros; os pequenos erros sobre amor.

Por meio dos capítulos elaborados na essência dos acontecimentos, Daniel Caldeira enreda os fatos numa linguagem atual e realista; as ideias contidas antecipam no leitor o desencadeamento da história, que a cada página intensifica os fatos da tragédia de Léo – uma sequência plausível e tocante. Os diálogos são transparentes e repletos de dramaticidade. Ao final, no capítulo O RECOMEÇO, Daniel encerra o pensamento que poderia funcionar como a moral da história, num clichê epifânico: “O mais mágico da vida é que sempre poderemos recomeçar, quantas vezes forem necessárias.” Mas o verdadeiro cerne está além.O recomeço – e a dor sublimada; e por que não o Caderno de David? – transformara Léo num escritor renomado. As perdas e os ganhos que a vida promove, repercutiram, reverberaram dentro dentre, ao ponto de transformá-lo num homem mais maduro, mais consciente.

A leitura de Caderno de David, numa linguagem ultrametalinguística, leva-nos a confrontar nossos medos e inseguranças que se apresentam em nossa vida, mas não deixando que um legado póstumo seja a resolução para o entendimento final. A resolução de nossos problemas está na condição que assumimos no enfrentamento diário de nossos problemas. David legou a Léo sua experiência além do caráter pedagógico; além do caráter altruísta, permitindo que apenas o seu amor pudesse encontrar o verdadeiro objetivo do seu epitáfio.

Não há um epílogo em si para o livro de Daniel Caldeira. A sugestão é de que se deve sentir cada página na sua essência disciplinar, reafirmando os compromissos e as ausências que promovemos diante de nós e dos outros. Abraçar o filho; dar o beijo de boa noite no filho, amante, parceiro ou amigo; dizer que ama; sentir-se no papel do outro, são conclusões simplórias para um provável final feliz. Mas a felicidade está nos cadernos de David- cadernos de Henrique- que abrimos em certa página de nossas vidas.

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Sobre Roberto Muniz Dias

Roberto Muniz Dias é piauiense radicado em Brasília há 10 anos, é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93a Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe - O Mocinho ou o Herói podem ser Gays”; Errorragia: contos, crônicas e inseguranças; Urânios; A teia de Germano; Uma cama quebrada (peça de teatro); Trilogia do desejo (coletânea de romances) e recentemente foi premiado pela FCP (Fundação cultural do Pará com o texto teatral AS DIVINAS MÃOS DE ADAM) como melhor texto teatral. Lançou recentemente o livro EXPERIENTIA, coletânea de suas primeiras peças de teatro. www.robertomunizdias.com
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