Um teto todo seu

 

Um teto todo seu

            O texto traduzido fala sobre ‘”teto”todo seu. Mas a versão antiga que tenho do livro em (Penguin, 1945) escreve literalmente “a room of its own”, numa alusão direta ao quarto, ou sala, nesse sentido melhor seria falar em ambiente fechado, por que nem sempre o abrigo de um teto é propicio para o ofício da escritura. E não era muito comum aquela época um teto sem acomodações específicas para um enclausuramento apropriado. Bem poderia funcionar: “um quarto todo seu.” No entanto, isto não diminui em nada o ensaio da escritora; e não deveria, pois estamos falando de Virginia Wolf.

            Logo nas primeiras páginas, fica clara a missão da escritora, em buscar uma resposta ao concreto: Mulheres e ficção. Ela estatiza que a escritora deve ter meios de promover o que seria uma autossuficiência em relação ao homem, e a frase que dá título ao livro logo é explicada sob este fundamento de a mulher ter um lugar para ficar e dinheiro para manter-se. O que não era uma realidade aquela época. A época era 1928 e há pouco mais de nove anos as mulheres conseguiram o direito de votar; e há pouco mais de 37 anos não era permitido äs mulheres possuírem bens.

            Esta tese do teto próprio, ou como eu quero: quarto próprio, desdobrava-se em outras conseqüências. Num ponto de vista inicial, essa ausência de recursos provêm da pobreza a que a mulher estava submetida, bem como estiveram suas antepassadas. O capitalismo tem sua parcela, enorme, de culpa centralizando os homens como detentores dos meios de produção. A presente revolução industrial propiciando a especulação financeira, os grandes bancos, os banqueiros. Enfim, os homens abastados é que possuíam os meios de promover a escrita, a sua escrita. Nesta busca empreendida pela escritora para a conflituosa resposta sobre Mulheres e Ficção, ela empreende pesquisa bibliográfica para constatar que isto era privilégio dos homens. “Por que homens bebiam vinhos e as mulheres água?” Este questionamento vinha em direção a outra situação em que a pobreza se centrava. Esta condição está ligada a força que o outro sexo impõe ao mais “pobre.”

            Seguindo sua pesquisa, saindo dos campos imaginários de Oxfordbridge, e agora em Londres no Museu Britânico (procurando uma resposta cartesiana) ela se pergunta, por que tantos livros tematizam os homens. “…quantos livros são escritos por homens?”e continua: “Estão cientes de serem, talvez,  o animal mais discutido do universo?

            As pesquisas bibliográficas rendiam histórias do registro insignificante acerca da mulher em si ou de seu papel como pensadora. Perde-se e se encontra nas palavras de Samuel Butler: “Os homens sábios nunca dizem o que pensam das mulheres.” E entre tantas depreciações, encontra vozes que exortam a mulheres como Goethe, num quase unitário exemplo.

            Então ela se fixa no que fora produzido no período elisabetano de Shakespeare, e como ela se assume desconhecedora de um único relato sobre a escritura feminina nesse período. Engraçado que ela flerta com a prosa e uma espécie de confissão em sua imaginação, quando inventa Judith, irmã de Shakespeare, inventada para concluir que mesmo que sua escrita fosse maravilhosa, ela seria ou teria sido privada dos estudos, não conheceria Virgílio, nem gramática e ainda teria que lidar com os afazeres domésticos. Seria tão talentosa quanto o irmão, mas todos os seus esforços para demonstrar seu talento seriam menosprezados pela família. Então, em leve desespero, ela foge, apresenta-se num teatro, sendo ignorada, para depois prostituir-se e suicidar-se.

            Mas Virginia se ressentia de um passado que ela mesma não necessariamente seria tributária, vez que recebia uma pensão da tia, e futuramente, ou já a essa época, já vivia as expensas do marido editor. Isso a promovia uma certa estabilidade metalingüística, falando assim, nesse caso em que advoga pelo “teto”e a renda fixa.

            Li alguma coisa sobre “Um teto todo seu” e verifiquei uma opinião plausível, que logo concordei prontamente, Virginia Wolf, neste ensaio, promovia uma espécie de feminismo dócil. Neste mesmo texto o autor se interroga se existe esta espécie e se convence que não se trata de um feminismo dócil e sim um da estirpe inteligente, fino e de resultados. E de fato nem parece os discurso inflamados das feministas da segunda onda, tampouco o discurso de cunho filosófico das francesas. É irônico e ao mesmo tempo contundente no que diz respeito às raízes da origem da opressão, no capitalismo, no controle majoritário dos homens na sociedade. Ela afirmaria que, embora existisse uma senhora que pudesse ter meios e liberdade para escrever m livro, esta seria tida como monstro por desafiar os destinos de sua sexualidade.

            Na fase de pesquisa ainda a procurar o que as mulheres têm escrito, ela adentra o século XIX, destacando Brontë e Austen. Há uma certa exortação a esta última em detrimento do brilhantismo da segunda. Nas próprias palavras de Wolf, Austen escreve: “sem fanfarronices e sem ferir o sexo oposto, poder-se-ia dizer que Orgulho e Preconceito é um bom livro.” Ela fala de uma Austen sem dificuldades, como limitações, senão as que naturalmente ela se impunha. Seu texto era livre de rancor, diferentemente de Brontë que era rancorosa e escrevia com certo protesto- especialmente em Jane Eyre. E por esta razão, segundo Wolf: “percebe que jamais conseguiria expressar seu talento integral e completamente…escreverá sobre si mesma quando deveria escrever sobre seus personagens.” Aí reside sua falha. Mas me indago se não seria justo o autor se envolver com todo o exagero e liberdade, sobre uma causa genuinamente sua? Bem, isso requer que Wolf revisse as questões dos discursos  em que na narratologia este papel do autor é indissociável dos personagens.

            Enfim, de volta a pesquisa de Wolf, seu radicalismo eufêmico, mais adiante, vai advogar por um romance que: “se afigura como criação dotada de certa semelhança especial com a vida embora, é claro, com inúmeras simplificações e distorções (então por que ela ataca Brontë?) “A vida conflita com algo que não é vida!”

            Esta revolta de Brontë distancia de uma teleologia, desvirtuando seu trabalho, não distinguindo  entre o verdadeiro e o falso. Teria sido diferente se Brontë fosse homem? Em que pese a limitação dessas duas mulheres, Wolf elogia o brilhantismo em estabelecer a liberdade em suas mentes.

            No penúltimo capítulo, Wolf se situa em seu tempo e conclui que: “talvez a mulher esteja começando a usar a literatura como uma arte, não como um método de expressão pessoal.” De novo ela implica com a voz interna do autor (esse discurso apaziguador, que mais tarde ela vai falar em mente andrógina, não me seduz),

            Na pretensa busca ou identificação das falhas substancialmente literárias, ou de uma epstemiologia daquele entendimento sobre a escritura feminina, Wolf promove o embate entre as escritoras Brontë e Austen, dando a esta última uma condição especial em que pese menos talento e páginas da escritora.

            Aí uma outra invenção de sua mente, ou ela mesma disfarçada em Mary Carmichel, imagina um diálogo entre Chloe e Oliver, da qual o eixo de sua pesquisa parece encontrar um momento epifânico por não centrar o pensamento apenas na visão do amor, da paixão, ou o que seja, apenas situando o homem e a mulher. Poderia haver um caminho alternativo de uma situação vivida por duas mulheres. O eterno gostar dos homens pelas mulheres. “O que seria da Literatura se houvesse apenas o mote do interesse de homens por mulheres? Um pensamento extensivo levaria a imaginativa indagação de por que haveria uma Literatura somente feita por homens, e por que não de um amor diferenciado?

            Embora o texto seja coeso em suas diversas e intrincadas mensagens e imagens, Wolf dá saltos, e geralmente, estes saltos aterrissam em variados pensamentos. A questão da criatividade feminina (devido ao longo curso de tempo dedicado as tarefas domésticas) e colocada como uma questão de devir, acerca da educação baseada na diferenças. Depois volta sua divagação para as vidas das mulheres que não foram registradas. E em seu diálogo com a poetisa Mary, ela reflete sobre sua indiferença acerca das  “centésimas qüinquagésimas vidas de Napoleão, ou o septuagésimo estudo de Keats e a simples vida de uma balconista.

           E de volta a Londres de 1928, Wolf, em meio ao agito daquela cidade fervilhando entre pessoas e o burburinho do tráfego, ela se perdia em elucubrações sobre uma mente andrógina, corroborando os pensamentos de Coleridge. No entanto, essa mente não queria dizer simpatia pela mulher, e sim uma mente que transmitisse emoções sem empecilhos. Talvez Shakespeare o fosse assim.

            Na batalha dos sexos Wolf advoga por uma escritura que contemple as duas possibilidades. “É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculino.” Nem muito feminino quanto pôde ser Proust. “A totalidade da mente deve estar escancarada, se quisermos ter o sentimento de que o escritor está comunicando sua experiência com perfeita integridade.”

            E como se todos estivessem esperando pela última (um certo tom misógino senti nestas últimas páginas) palavra, as recomendações vêm em tom severo. Ela alerta para as barreiras conceituais sobre o ofício, mas brilhantemente, conclama para que essas dificuldades não sejam empecilhos para que se promova uma escritura feminina. Em que pese todas as admoestações é necessário deixar-se tomar pela irmã fictícia de Shakespeare: “mas ela vive, pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas de oportunidade de andarem ente nós em carne e osso.”

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Sobre Roberto Muniz Dias

Roberto Muniz Dias é piauiense radicado em Brasília há 10 anos, é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93a Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe - O Mocinho ou o Herói podem ser Gays”; Errorragia: contos, crônicas e inseguranças; Urânios; A teia de Germano; Uma cama quebrada (peça de teatro); Trilogia do desejo (coletânea de romances) e recentemente foi premiado pela FCP (Fundação cultural do Pará com o texto teatral AS DIVINAS MÃOS DE ADAM) como melhor texto teatral. Lançou recentemente o livro EXPERIENTIA, coletânea de suas primeiras peças de teatro. www.robertomunizdias.com
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