PORQUE EU AMEI de Roque Neto

RESENHA CRÍTICA de PORQUE EU AMEI do escritor ROQUE NETO

…Hoje vi você chorar.

Suas lágrimas contam uma verdade

Que não consegui compreender

Desculpe-me, também chorei!

Pelo que podemos ser Apesar dos segredos que escondemos…

 

 

Ainda estou de olhos sujos – expressão metaforicamente usada pelo escritor –, ainda atordoado com toda a trajetória de José Lucas. E este nome ficou me perturbando constantemente, vez que sua personagem se desdobrava para viver duas pessoas diferentes.

Desisti ao longo da leitura em quem nomear José, quem nomear Lucas. Mas essa incapacidade não me deixou de sentir toda a sorte de desventuras que este personagem sofreu ao longo de sua trajetória. PORQUE EU AMEI, para um título, é mais do que adequado para este livro do Escritor Piauiense Roque Neto. A justificativa fica mais do que clara quando lemos o epílogo – a epístola confessional de Thomas, amante de José Lucas. Tudo parece ter sentido quando se busca o amor, ou quando se busca a vida!

Thomas é mais do que o objeto do desejo, do amor de José Lucas, ou melhor, do Padre José Lucas. Esta dualidade, esta máscara que José parece usar nada mais é do que uma armadura que a sociedade preconceituosa o, ou nos oprime, oprime a usar. Os papeis sociais ainda são determinados por contratos sociais que fazemos diariamente, e forçosamente, em nome de promessas alheias as nossas. E aí reside todo o drama de nosso protagonista.

O livro é propositadamente entrecortado com passagens entre o presente e o passado, onde essas instâncias parecem provar que sempre José esteve nesta miscelânea, o tempo todo na convivência dialética desses tempos. A família, nordestina, Pernambucana, é apenas um lugar. Ainda que exista um preconceito declaradamente generalizado; é mais contundente sua versão disfarçada. O passado é influência presente na vida de José, ou Padre José Lucas. A primeira experiência sexual, numa manobra chantagista; a confissão de sua sexualidade; a vontade de sua mãe; seu destino; o mister para com Deus parecem coisas substancialmente presentes.

O amor é vivido em diversas formas: o amor pelo sacerdócio; o amor por Duduca; o amor pelo avô; o amor pela coragem de sua mãe; o amor quase paternal de Dom Castelleti; o amor pela busca e ausência do pai; o amor, em sua essência: Eros e Tânatos, por Thomas. Enfim, ainda reforço que PORQUE EU AMEI é um titulo por demais apropriado. Parece que em todos os momentos da vida do Padre José Lucas, sempre havia algum motivo nobre, mesmo quando em sua versão maquiavélica que tentava se desvencilhar das ameaças do Padre Wilson. Este resumia toda a hipocrisia existente nas religiões que apregoam a misericórdia e a retidão como pontos basilares de uma formação humanística e redentora; mas que no fundo se revelam na podridão do ser humano, mesmo debaixo de uma batina.

No entanto, dentro da trama de Roque Neto, esses detalhes da hipocrisia e do preconceito são sutilmente revelados, bem como todo seu hercúleo trabalho para enfrentá-los são demonstrados de uma forma altruística e humana. Não parece existir mal em José. Talvez por isso nos enfileirássemos – digo os leitores deste livro – num alinhamento em que nos remete à questão da culpa. Aqui esta parece ser um ponto nevrálgico nesta impressionante obra do autor. Culpa e medo andam juntas. A culpa cristã, revelada nas primeiras e únicas conversas que José teve com Deus – o memento de desespero sempre parece oportuno para estas conversas íntimas. “Por que comigo?” não é nada mais do que uma assunção de nossos próprios erros, mesmo que em nome de algo nobre; seja em nome do amor por Thomas, seja em nome pelo amor a Deus. E em momentos de desgraça sempre nos perguntamos onde estaria este Deus que não nos olhou o caminho.

As últimas páginas de PORQUE EU AMEI nos deixam numa antecipação catastrófica, como se pudéssemos adivinhar o que poderia acontecer com um Padre que se desvirtua de seus primados. Somos, instintivamente, levados por nossos preconceitos internalizados, a acreditar que o final é trágico, que o remédio para todo seu tormento e escolha feita é a morte.

Roque Neto nos prende pela emoção, mesmo que a antecipação seja, por um momento, uma garantia de nossas verdades assumidas. Pegamo-nos longe de uma verdade real. O que importa antes das palavras finais, no espaço entre a conversa com a psicóloga e o epílogo, é que sempre houve uma intenção do amor e uma intenção para a vida.

Estas portas, tanto para o amor, tanto para vida estão sempre abertas para quem acredita que além de tudo possa existir alegria. Ler PORQUE EU AMEI é uma experiência suja, porque ainda me encontro com os olhos todos sujos; é uma experiência epifânica, porque onde há morte há um desejo inalienável de viver.

A primeira e última confissão feita por Padre José Lucas, cônscio de sua escolha, nos deixa triste porque revela o peso da culpa assumida. Mas nos deixa pensar que mais vale a pena viver nossas vidas, em nome de uma verdade egoísta e libertadora, do que viver a realidade dos outros de forma completamente contemplativa.

Por Roberto Muniz Dias

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Sobre Roberto Muniz Dias

Roberto Muniz Dias é piauiense radicado em Brasília há 10 anos, é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93a Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe - O Mocinho ou o Herói podem ser Gays”; Errorragia: contos, crônicas e inseguranças; Urânios; A teia de Germano; Uma cama quebrada (peça de teatro); Trilogia do desejo (coletânea de romances) e recentemente foi premiado pela FCP (Fundação cultural do Pará com o texto teatral AS DIVINAS MÃOS DE ADAM) como melhor texto teatral. Lançou recentemente o livro EXPERIENTIA, coletânea de suas primeiras peças de teatro. www.robertomunizdias.com
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